sábado, dezembro 02, 2017

Hipônax, fr. 115 West

Varrido pela onda
Em Salmidessos pelado a melhor acolhida
 os Trácios Cabeludos
 deem – aí de misérias mil se farte,
comendo pão de escravos -
hirto de frio saia da salsugem do mar
e muitas algas vomite
bata os dentes como cão de bruços
caído sem forças
no quebra-mar ...
ah isso eu queria ver
que ele me ofendeu, pisou nos pactos

ele que antes era meu amigo

 κύμ[ατι] πλα[ζόμ]ενοσ̣·
κἀν Σαλμυδ[ησς]ῶ̣ι̣ γυμνὸν εὐφρονέσ[τατα
 Θρήϊκες ἀκρό[κ]ομοι
λάβοιεν – ἔνθα πόλλ' ἀναπλήσαι κακὰ
 δούλιον ἄρτον ἔδων –  
ῥίγει πεπηγότ' αὐτόν· ἐκ δὲ τοῦ χνόου
 φυκία πόλλ' ἐπιχέοι,
κροτέοι δ' ὀδόντας, ὡς [κ]ύ̣ων ἐπὶ στόμα
 κείμενος ἀκρασίηι
ἄκρον παρὰ ῥηγμῖνα κυμα.....
 ταῦτ' ἐθέλοιμ' ἂ̣ν ἰδεῖ̣ν,  
ὅς μ' ἠδίκησε, λ̣[ὰ]ξ δ' ἐπ' ὁρκίοις ἔβη,
 τὸ πρὶν ἑταῖρος [ἐ]ών. ⊗

[Trad. Rafael Brunhara]

quarta-feira, outubro 11, 2017

As Rãs, versos 90-105 - Três traduções (Tadeu Andrade, Trajano Vieira, Junito Brandão)

Tradução de Tadeu Andrade (ANDRADE, T.B.C. A Arte de Aristófanes: estudo poético e tradução d'As Rãs. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 2014)

Hércules: Mas não há por essas bandas uma molecada nova
Escrevendo mil tragédias ou pra mais de dois milhões
E co'a língua cinco vezes mais comprida que a do Eurípides?

Dioniso: São a réstia da moléstia, uma corja de matracas,
Um coral todo de gralhas, que cagou na minha arte!
Uma vez tendo coberto a tragédia com seu mijo
Bem no dia que estrearam, saem fugidos e se escondem!
Nem buscando em todo o canto você acharia um poeta
Fértil que possa entoar um só verso de alta estirpe.

Hércules: E o que "fértil" quer dizer?

Dioniso: Fértil, oras, bem valente,
Que é capaz de recitar um verso que seja assim:
"O Éter, o quintal de Zeus" ou então "pé do Tempo"
Ou que " a mente não queria jurar pelo que é sagrado
Mas a língua fez perjúrio, sem sequer contar à mente".

Hércules: Isso aí é o que te agrada?

Dioniso: Isso me leva à loucura!

Hércules: Mas vai ter que admitir que é uma bela de uma bosta.

Tradução de Trajano Vieira
(VIEIRA, T. As Rãs. São Paulo: Cosac&Naify, 2014):

HÉRACLES Quer dizer que acabou a penca de janotas
escriturários de tragédia aos borbotões,
falantes pelos cotovelos mais que Eurípides?

DIONISO São uns uvoides, bons só no gogó, a musa
de quem corrompe a técnica é o papagaio.
Desaparecem ao paparem um só coro,
tendo urinado na tragédia uma vez.
Mas se o que buscas é um poeta original,
capaz de renovar a elocução, esquece!

HÉRACLES Original em que sentido?

DIONISO Que aceita o risco quando configura um verso,
algo do tipo: "Puxadinho do Cronida:
Éter!", senão: "o pé do Tempo". Eis outro exemplo:
"a mente recusando a jura sobre as vítimas,
perjura a língua que independe de sua mente"

HÉRACLES Caramba! Gostas dessa baboseira?

DIONISO Só de escutá-la, piro.

HÉRACLES Mas sabe que não passa de um efeito pífio.

Tradução de Junito Brandão
(BRANDÃO, J. Teatro Grego. Eurípides, Aristófanes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1986)

HÉRACLES Não há por aqui outros jovens poetas, que compõem tragédias, cujo número excede a dez mil e que são infinitamente mais tagarelas que Eurípides?

BACO Tudo isso é rebotalho, mera tagarelice, música de andorinhas; corruptores da arte, que rapidamente se eclipsam, tão logo obtenham um coro, pelo simples prazer de terem mijado na musa trágica. Mas um poeta "inspirado" que nos faça ouvir expressões nobres ainda que o procures, não o encontrarás.

HÉRACLES Inspirado, como?

BACO: Sim, inspirado, como aquele que fosse capaz de inventar expressões atrevidas, do quilate de "Éter, pequenina mansão de Zeus" ou o "pé do tempo", ou ainda "o coração não quer jurar pelas vítimas, mas a língua perjura sem a cumplicidade do coração".

Héracles: Gostas dessas coisas?

BACO: Melhor seria dizer que estou mais do que louco por elas.

HÉRACLES: Em verdade são malabarismos e esta é também a tua opinião.

Safo, Fragmento 31 - Tradução de Marcos Müller

Me faz pensar nos deuses o tal
cara que na tua frente sentou
e de pertinho a falares me-
-líflua te escuta

E a sorrires graciosa, socorro,
dispara no peito o coração,
pois mal te olho, guria, que a voz foge
e não mais volta:

Dormente ficou a língua, súbito
um fogo agudo a pele transiu,
os olhos nem vejo nada, os ou-
vidos zunzunem,

Eis que o suor escorre, e me bate
uma tremedeira, desverdeço
qual capim, carente de estar morta
me faço eu mesma.

Mas aguenta firme, embora penes...